Por Eduardo Júlio

De forma sublime foi encerrado o I Festival de Música Barroca de Alcântara, na noite de segunda-feira, 5, na Igreja da Sé, em São Luís. Quatro atrações nacionais: Affetti Musicali (São Paulo), Capela Brasileira (Maranhão), Banza (Paraná) e Duo Maria Bragança (Minas Gerais e Rio Grande do Sul) apresentaram um recorte do que há de mais precioso na interpretação da música antiga (medieval, renascentista e barroca) feita no Brasil na atualidade. O evento foi idealizado pelo francês Bernard Vassas, que atualmente mora em Alcântara.

Foi uma rara oportunidade para o público maranhense apreciar a interpretação da música erudita registrada até o século XVIII, com instrumentos de época (inexistentes em São Luís), a exemplo de um cravo e seus múltiplos timbres. O instrumento foi transportado de São Paulo para o Maranhão especialmente para o evento. Outro detalhe: as apresentações seguiram quase à risca o horário anunciado.
A nave da igreja não estava lotada, o que era de se esperar para uma audição de música antiga, numa noite de segunda-feira, na capital, mas o público presente concentrou-se e vibrava no final de cada peça executada.
O nome do festival refere-se ao mais importante e mais conhecido período da Música Antiga: o barroco, mas as atrações do festival dialogam com outros momentos da Música Antiga, a exemplo de composições da Idade Média e do Renascimento. Quem perdeu vai ter que esperar o próximo ano.

Maestria
A noite foi aberta com o grupo Affettti Musicali, de São Paulo, que apresentou uma performance de música e dança dos séculos XVII e XVIII. Com instrumentos de época: viola de gamba, guitarra barroca, violino barroco e cravo, o grupo interpretou peças de compositores do barroco, a exemplo dos franco-italiano Jean-Baptiste Lully (1632-1687) e Robert Vissé (1655-1733). Uma peça deste último foi executada durante um solo do músico Guilherme Camargo (guitarra barroca), que contrapôs o delicado trabalho de Vissé à composição visceral Folias d’Espanha, um dos temas ibéricos mais populares do Renascimento, apresentada pelo violonista como uma antítese do estilo francês. Foi a melhor maneira de apresentar ao público as diferentes formas de tocar a guitarra barroca, parente do violão.
A apresentação precisa e elegante dos músicos do Afetti Musicali era completada pela coreografia dos bailarinos Osny Fonseca, que também tocou cravo, e Raquel Aranha. Vestidos com roupas de época, o casal apresentou passos de dança das cortes dos séculos XVII e XVIII.
Em seguida, foi a vez do coral maranhense Capela Brasileira, dirigido por Ciro de Castro, fazer a interpretação de peças vocais dos períodos renascentista e barroco. O grupo começou com Riu Riu Chiu, música que integra o Cancioneiro de Upsalla, um dos manuscritos de canções do Renascimento, registrados na Espanha. Depois, o coral apresentou temas polifônicos, a exemplo de peças dos compositores Claudio Monteverdi (1567 – 1643) e Tomás Luís de Victoria (1548 – 1611), cuja morte completou 400 anos em 2011. Durante a apresentação, o regente Ciro de Castro explicou que o modelo polifônico tomou tamanha proporção que os temas religiosos cantados ficaram ininteligíveis. Daí, esta forma de música vocal hipnótica passou a ser proibida pelo Vaticano durante a Contra-Reforma. Afinal, a mensagem da Igreja Católica precisava ser muito bem compreendida naquele período em que perdia terreno para o protestantismo. Enfim, o Capela Brasileira impressiona pela qualidade do minucioso trabalho. Por isso, o grupo precisa conquistar visibilidade. O público maranhense que aprecia música erudita deve conhecê-lo.

Retorno 
Com algumas mudanças na formação, o grupo paranaense Banza voltou a São Luís, depois de cinco anos da primeira apresentação na capital. O conjunto apresenta uma pesquisa que mergulha nas similaridades entre a música do período colonial do Brasil e a da Península Ibérica, citada na poesia do poeta baiano Gregório de Mattos, o Boca do Inferno. O simpático grupo de Curitiba deu um baile de interpretação da música do século XVII. Vale lembrar que o Banza tem um excelente CD lançado com o repertório da pesquisa: A Música no Tempo de Gregório de Mattos. Vale procurar por aí.
O Duo Maria Bragança formado pela saxofonista mineira Maria Bragança e pelo jovem cravista gaúcho Fernando Cordella fechou o festival apresentando uma performance inusitada e brilhante que adaptou para saxofone e cravo, algumas peças barrocas compostas originalmente para flauta e cravo. Alguns pontos altos foram os momentos solos como a interpretação de Fernando Cordello de uma parte das célebres Suítes Francesas, do alemão John Sebastian Bach. Por sua vez, Maria Bragança interpretou, também de Bach, um tema das magníficas Suítes para Cello, adaptada para o sax. O duo fechou a noite com a execução da cantiga infantil Se essa rua fosse minha, acompanhado de músicos do Banza.

Turismo
Foram quatro dias de festival, sendo dois em Alcântara. A abertura foi realizada na cidade de Bacabeira. Como forma de incentivo ao turismo em Alcântara, a primeira edição do festival cumpriu em parte este objetivo, porque a maioria das poucas pousadas existentes por lá está ocupada por trabalhadores que atuam na ampliação da Base de Lançamentos de Foguetes. Hospedar-se onde então?
Outra questão: será que houve o diálogo necessário dos músicos do festival com os alunos da Escola de Música do Estado? Se não, no próximo ano, este laço precisa ser estreitado.
Mas somente a continuidade do festival pode aprimorá-lo. E que nos 400 anos de São Luís o evento traga mais atrações, tão boas quanto as deste ano. Os sentidos da capital e de Alcântara precisam ser bem temperados com música de excelência.

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Texto publicado dia 08-12-2011 no jornal O Estado do Maranhão.