Por Ubiratan Teixeira
A mulher ficou irada comigo, blasfemando como um boçal mal nascido, ameaçando-me inclusive de castração pública, berrando que eu era o filho de uma mulher mal-falada, xingou, xingou de tudo, nunca imaginei que uma criatura com aquele porte elegante de armarinho chique e feições tão delicadas pudesse estar recheada com um rol tão grande de rudes palavrões: e terminou num berreiro infantil.
Agora me diga fiel leitor, que culpa tive daquele jocoso acidente, provocado mais por sua lerdeza civil, e sua atenção defeituosa de pedestre descuidado numa cidade onde condutores de veículos mal formados e pessimamente habilitados vivem circulando impunemente?
Atravessávamos de forma temerária um cruzamento confuso, desses que a gente arrisca a pele confiando que o anjo da guarda esteja atento, sem saber ao certo o que seja mão e contra-mão. Eu ia, ela vinha – ou vive-versa -, eu, gato escaldado, testemunha ocular de inúmeras trombadas fatais naquele mesmo espaço, um olho no padre, outro na missa – e também no ciclista que avançava temerário, rota de colisão, esse então totalmente desregulado. No caso, o padre era ela, quarentona bem moldada, máquina explícita de libido e sensualidade, encadernada naquela manhã sombria num conjuntinho de seda luminosa que só deixava aos frágeis mortais a lírica opção de formalizar pensamentos cúpidos. Senti seu olhar sobre minha escalavrada figura; mas não era ninguém do meu rol de conhecimento. Por isso, como era dia de montar a crônica, pensei de repente no tema espetacular que seria seu atropelamento ali, naquela hora e naquela manhã de chuva rala, quando enquanto todas aquelas pessoas normais corriam nas suas tarefas cotidianas ela magnetizava sentidos e sentimentos.
Pensava na crônica, olho vivo no semáforo, mas também sem ver o pilantra do ciclista alucinado naquele primeiro momento. Meu atropelamento seria por caçamba, uma reles caçamba asmática, carente de freios, reumática e mal-cheirosa, reiúna, transbordando de entulho, que avançaria em patético estardalhaço, colhendo sua vítima pelo lombo esquerdo a altura do pâncreas – hemorragia interna fatal. No asfalto molhado a figura inanimada da mulher se destacando em branco na negritude do piche, para alegria dos repórteres policiais, virando manchete no dia seguinte: “Trânsito maluco faz mais uma vítima” – com depoimentos de populares, líderes comunitários, Direitos Humanos e algum funcionário subalterno do Detran, IML ou de alguma dessas gerências de qualquer coisa – e minha crônica.
(Quem seria aquela criatura que se destacava do resto da humanidade naquele começo de manhã específica? De onde viria e para onde iria naquele traje garrido, destacando-se de todos e a todos se impondo como figura singular? Teria um passado ou estaria construindo um futuro? Teria, algum dia de sua vida inspirado algum poeta como estava naquele momento inspirando o cronista?).
Mas a colisão foi com o ciclista. Não uma dessas clássicas trombadas que ganham líricas onomatopéias nas histórias em quadrinho, mas um abraço. É verdade que um abraço rude, grotesco, quase rocambolesco ou circense. Quem seria aquele ciclista com sua mochila surrada, feições rudes, todo ele de uma rusticidade ancestral, vítima, quem sabe, de uma cultura urbana escravagista? O que estaria pensando quando traçou aquele percurso violentador, como teria sido sua noite e o que estaria pensando para aquele novo dia? Fui notá-lo no ponto de intersecção entre o meu olhar e o olhar da mulher, quando não havia mais nenhuma solução plausível para evitar o impacto. Penso que foi meu riso, meu riso não, minha gargalhada que exasperou a criatura e a deixou transtornada, que revelou sua face nigrinha mais do que o impacto com o crioulão. Ele, sem outra alternativa, na marcha que vinha – e certamente atento apenas para seus próprios problemas – e com uma habilidade pouco usual saltou de sua bicicleta e se abraçou à mulher. Foi um abraço desesperado, ditado pelo instinto, surgido da área mais profunda de sua ancestralidade. Unidos àquele amplexo selvagem, os dois rolaram pelo asfalto selvagem diante do olhar estupefato de quantos se encontravam na área, transeuntes, condutores de veículos, passageiros de lotações, aeronaves, enquanto eu ria. Não sei o por quê do meu riso, se por achar hilária a situação ou por me sentir também personagem do fato e pressentir a banda hilária da história e o título abiscoitado de Garcia Marques, tipo “A crônica da morte anunciada”.
Mas não queira nunca, leitor amigo, escutar um discurso daquele gênero, jorrando de uma garganta irada, como escutei naquela manhã de quarta-feira: proferida por uma mulher sem certidão de nascimento, sem CPF conhecido ou identidade sabida; salva de um desastre maior pelo abraço de um outro anônimo.