Uma história sobre o absurdo, sobre uma cidade onde as pessoas vivem e assistem fatos absurdos e ninguém faz nada e ninguém muda. Onde todos ou estão enebriados, fazem que não vêem nada ou simplesmente não enxergam por incapacidade. Nesse cenário de notícias esdrúxulas, onde fatos grotescos acontecem, cachorros são presos e pagam pena de detenção, mulheres arrancam testículos de adolescentes com os dentes e um monstro perambula pelas ruas da Praia Grande. Um monstro com forma de cachorro-quente. Um ‘festifud’ que se prostitui e mata. Todo esse universo escatologicamente cômico e crítico, até escarnecedor, está no livro “O Monstro Souza”, dos escritores Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos. Na obra com as linguagens dos quadrinhos, da literatura e do jornalismo para construir um mundo, o maranhense Bruno Azevêdo revê a sua São Luís para criticar e a sua realidade para cuspir sobre os podres ludovicenses. “O Monstro Souza” teve na última semana o lançamento no evento de quadrinhos Comicon, onde foram vendidos 200 exemplares. Com uma estética milimetricamente montada, a publicação traz ilustração de uma dezena de artistas de todo o país e pode ser vista com uma obra coletiva, carregada de criatividade. Em entrevista, Bruno Azevêdo fala um pouco sobre o processo de construção de seu terceiro livro, a ser lançado hoje à noite na Casa do Escritor Maranhense, dentro da programação da IV Feira do Livro de São Luís, às 21h. A exemplo do segundo livro do escritor maranhense, “Breganejo Blues” – lançado no ano passado -, “O Monstro Souza” sai pelo selo indepedente Pitomba!, que tem seu manifesto aqui publicado no fim da conversa.


O Monstro Souza virou uma lenda entre os universitários dos anos 2000, principalmente entre os estudantes da Universidade Federal do Maranhão. Qual a história dessa lenda?
Bruno Azevêdo – “O Monstro…” eu comecei a escrever em 2000. Na época, eu ainda estava na UFMA, fazendo o curso de História, e foi um livro que durante o processo de produção, foi sendo passado por um monte de gente. Todos iam dando  pitacos sobre isso e aquilo à medida que o texto era construído. Acho que, por isso, um monte de gente acabou conhecendo-o entre um fragmento ou outro e acabou gerando essa expectativa em relação ao livro. Tem uma história engraçada envolvendo o Flávio Reis (professor do Departamento de Antropologia e Sociologia), um cara que curtiu o livro para caralho. Eu dei a última versão para ele, que leu e disse: “- Rapaz, eu não sei se isso aqui bate do mesmo jeito”. E é legal, porque o que eu dei para ele é um outro livro e ele já é um outro cara, seis anos depois. Então o livro tem essa construção monstruosa a partir do momento em que tinha um monte de gente em torno, mas chega uma hora que tem que ter uma versão final. Há uma hora que tem que botar o ponto final nessa porra e agora está aí na tua mão.


É uma obra coletiva, então?

Bruno Azevêdo – É uma obra coletiva. Há pelo menos uns 12 autores no livro, fora aqueles dos quais eu me apropriei.


O livro não é apenas um livro, uma peça literária. Parece um emaranhado de recortes com quadrinhos, notícias e prosa. Por que a escolha desse formato?
Bruno Azevêdo – Foi uma escolha de formato porque o livro é um livro sobre São Luís, sobre o monstro e parte da premissa que a cidade é monstruosa, por isso o livro fala de um monstro que, no final das coisas, é a própria cidade. No processo de contar essa história – na época, eu já fazia pesquisas em jornais por conta do curso na universidade -, alguns dos recortes que estão no livro eu comecei a encontrar durante essas pesquisas. A partir dessas histórias recortadas, eu fui construindo parte da narrativa ficcional, que saiu de narrativas supostamente reais. E as outras linguagens – como os quadrinhos – chegava um certo momento, que eu pensava: “Rapaz, isso aqui funciona melhor em quadrinhos do que funciona em prosa”, e decidia: “Então, vamos fazer em quadrinhos”. Aí, a gente jogava, no meio da construção do monstro. Isso acontecia meio que naturalmente. “O Monstro…” foi sendo feito por meio de aglutinação. Tanto de histórias quanto de linguagens. Para mim não faz nenhum sentido transcrever, fazer um copy-desk (reescrever uma notícia jornalística) disso ou daquilo, se o formato original do jornal já é uma linguagem. Por isso, o livro é todo bagunçado.


Literatura e quadrinhas são dois gêneros que têm dialogado muito nos últimos anos. Onde está a diferença entre um e outro? Até onde vai essa interseção artística e os limites de um e outro?

Bruno Azevêdo – Os quadrinhos sempre tiveram uma posição marginalizada, de sub-literatura, de literatura para criança ou de nem literatura. Hoje em dia consegue se dizer literatura e quadrinhos na mesma frase e já não soar tão estranho. Mas é muito mais comum que ele tenha essa referência marginalizada. Vez em quando alguém pensa: “Ah, vamos fazer o Machado de Assis em quadrinhos”. Porque é mais fácil para criança e uma hora ela pode até ler o Machado de Assis. O que é uma estupidez do tamanho do mundo. Os quadrinhos são uma linguagem autônoma que tem suas peculiaridades, sua forma de contar e não importa que seja Machado de Assis ou outra história que seja feita originalmente para quadrinhos. Acho que depois das décadas 1970 e 1980 para cá, os quadrinhos têm alcançado um status mais literário. Foi quando começou a sair mais da grande indústria e passou a ter obras de autor, obras jornalísticas, biográficas. Foi quando alguns escritores começaram a escolher os quadrinhos como forma de veiculação. Para mim, é complicado separar um pouco porque eu sempre li tudo como uma coisa só. Ninguém me disse que a Turma da Mônica que eu li quando criança era sub-arte ou era sub-literatura. Então, eu pegava a Turma da Mônica e pegava a Marina Colasanti e para mim não tinha diferença entre uma coisa e outra. Ninguém chegou para me dizer: “Isso aí é uma merda”, “isso aí é uma coisa menor” e quando disseram eu já não acreditava mais. No final das contas para mim, o cara pode ser um bom escritor, um bom quadrinhista da mesma forma. Não é por ser uma coisa ou outra, que ele é bom ou ruim.

A São Luís de “O Monstro…” é a São Luís do absurdo, de um monte de coisa absurda que fica passando na nossa cara e a gente ou já está anestesiado ou não se dá conta ou não percebe

Bruno Azevêdo, por Marcos Caldas (Ilustração)

Quais são as tuas influências literárias e quadrinhistas?
Bruno Azevêdo – Isso é complicadíssimo. Em termos de literatura, eu li muita coisa no colégio. Quase tudo que eu li no colégio eu odeio. Os grandes escritores da língua portuguesa, os grandes escritores brasileiros. Porque eu tinha um monte de professor de literatura burro, em uma escola burra, que só fazia a gente odiar aqueles caras. Eu nunca vi de fato os professores de literatura de fato lendo uma obra. Eles estavam interessados em encaixotar escritores dentro de uma escola literária e te fazer responder perguntas que para mim não faziam o mínimo sentido. Quando o negócio realmente bateu, foi quando eu tive que ler o Montello. A professora passou para turma ler “Os tambores de São Luís”. Aquela coisa enorme. A história é até engraçada, porque ela disse: “Olha vocês podem ler dois livros este mês: ‘Os tambores de São Luís’ ou ‘O Estudante’”, que é um livrinho de 70 páginas – imbecil inclusive!. Como eu tinha Montello lá em casa e eu não tinha grana para comprar o outro livro, eu li o Montello. Depois eu descobri que a professora não tinha preparado nada sobre o Montello. Ela nunca nem tinha lido o livro. Se ela dar algo de 70 páginas para a turma e outra de 600 é claro que ninguém vai ler o maior. Só que por algum motivo eu li. Foi quando eu comecei a ficar revoltado com o ensino de literatura. Eu tive que ler o outro livro. Mas aí o Montello já tinha feito aquele absurdo. Uma obra literária que modifica a cidade, que faz um efeito concreto. Que diz: “Olha, o mundo pode ser reformatado a partir disso aqui”. Então até hoje é um cara que leio muito e já li muito da obra dele, apesar de ele fazer uma literatura muito correta, muito certinha, completamente avessa à literatura que eu faço e ainda gosto de considerar ele uma influência fundamental. Mas tem outros caras como o Rubem Fonseca, Lourenço Mutarelli, que é até um cara que começou fazendo quadrinhos – que fez sete livros de quadrinhos – e hoje faz literatura apenas com letrinhas. Mas eu li muito fanzine que são coisas – do ponto de vista – muito fragmentadas, que são coisas amadoras, feitas por um monte de gente, distribuídas de forma capenga, de mão em mão e às vezes até de graça. Nos quadrinhos eu li muito Allan Moore, Neil Gaiman, que hoje em dia eu já não gosto tanto, mas o Allan Moore é o maior gênio dos quadrinhos, na minha opinião. O cara é foda, é foda, é foda.


Como é São Luís dentro do livro?
Bruno Azevêdo – A São Luís de “O Monstro…” é a São Luís do absurdo, de um monte de coisa absurda que fica passando na nossa cara e a gente ou já está anestesiado ou não se dá conta ou não percebe. No livro, isso é bem mostrado tanto pelos recortes de jornal – que mostra, bem isso aqui é a nossa produção jornalística. São as notícias que a gente tem todo dia, que são o que constrói a opinião das pessoas, que é como as pessoas estão lendo a cidade. No livro, por exemplo, o monstro é um cachorro-quente de 1,80m, que mora anda pela Praia Grande e se prostitui, mas ninguém percebe que ele é um cachorro-quente. Todo mundo acha que ele é só um cara feio, que está bebendo no bar, um sujeito excêntrico, uma dessas figuras da Praia Grande mesmo. Ninguém percebe que ele de fato é um cachorro quente. Puts, que absurdo! Essa é a alegoria principal da cidade, em relação ao Monstro, como as coisas absurdas acontecem e ninguém nota e ninguém está nem aí.
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01. porque a palavra, já dita, não é palavra, antes de ouvida

02. porque se há de ser dito, e se convém que se ouça, que seja dito com cacofatos e microfonias, pra que, assim, quem ouça também diga.

03. porque haja uma leva de gente, por fatalidade geográfica, no mesmo tempo e à mesma inação.

04. porque a informação não se pertence e a posse de ter é a posse de dar e é essa posse que reivindicamos.

05. porque a palavra há de existir para além de quem a diga, mas não para além dela, porque a palavra está para além de nada.

06. porque pra além do caroço, que é quase tudo, existe casca, que se quebra, e existe a polpa, que se quer:

pitomba!

(Manifesto do selo independente pitomba! publicado no livro “O Monstro Souza”)
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Serviço
Lançamento/ Livro – “O Monstro Souza”, de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos – Quando - Hoje, às 21h – Onde – Casa do Escritor Maranhense, na Feira do Livro (Praça Maria Aragão) – Preço -R$ 20,00

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Mais
Blog de BrunoAzevêdo

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*Entrevista publicada no jornal O Estado do Maranhão dia 20/11/10
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Crédito de ilustração (Souza): Carolina Mello
Crédito de fotos: Divulgação